DRE para escritório de arquitetura: como montar e o que ela responde
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · leitura de 9 min
A DRE gerencial de um escritório de arquitetura responde uma pergunta só: quanto sobrou do que o escritório faturou no período, e para onde foi o resto. Ela tem cinco linhas em cascata — receita, impostos sobre a receita, custos diretos dos projetos, despesas operacionais do escritório e resultado financeiro — e cada lançamento cai em uma delas pela categoria. Para decidir, olhe em regime de competência (o mês a que a receita e o custo pertencem); para saber se o dinheiro de fato entrou, olhe em regime de caixa. O custo das horas da equipe não entra como linha própria: o salário já está nas despesas, e somá-lo de novo contaria o mesmo dinheiro duas vezes.
O que a DRE responde e o que ela não responde
DRE é a sigla de Demonstração do Resultado do Exercício. Na contabilidade, é um relatório obrigatório com regras próprias, e quem faz é o contador. A DRE gerencial é outra coisa: é a mesma lógica em cascata, montada pelo próprio escritório com as categorias que ele usa no dia a dia, para decidir — não para cumprir obrigação.
Ela responde se o escritório deu resultado no período e onde o dinheiro ficou: quanto foi para imposto, quanto para os custos dos projetos, quanto para a estrutura. É a pergunta de "vale a pena continuar assim?".
Ela não responde se você vai conseguir pagar as contas do mês que vem. Isso é o fluxo de caixa, que olha datas de pagamento e saldo em conta. Um escritório pode ter DRE positiva e faltar dinheiro em outubro, porque o cliente paga em parcelas e o aluguel vence todo dia 5. As duas ferramentas andam juntas, e confundi-las é o erro mais comum de quem começa.
As cinco linhas de uma DRE de escritório de projeto
Para um escritório de arquitetura, interiores ou engenharia, cinco linhas bastam. Mais que isso, a DRE vira um plano de contas contábil que ninguém lê; menos que isso, o imposto se mistura com o aluguel e a leitura perde sentido.
(+) Receita
Honorários de projeto, parcelas de contrato, consultoria, acompanhamento de obra, comissões e RT. É tudo o que o escritório faturou pelo trabalho que faz.
(−) Impostos sobre a receita
Os tributos que incidem sobre o faturamento, como o Simples Nacional ou ISS. Ficam logo abaixo da receita porque não são escolha: quanto mais se fatura, mais se paga. A receita menos os impostos é a receita líquida — o que de fato é do escritório.
(−) Custos diretos
O que só existiu por causa de um projeto: plotagem, maquete, render terceirizado, cálculo estrutural contratado, deslocamento para a obra, RRT. Se o projeto não existisse, o gasto não teria acontecido.
(−) Despesas operacionais
A estrutura que existe com ou sem projeto: aluguel, salários, pró-labore, contador, softwares, internet, marketing. É o custo de manter o escritório aberto.
(±) Resultado financeiro
Rendimentos de aplicação entram somando; tarifas bancárias, juros e multas entram subtraindo. Fica separado para não esconder o resultado da operação: um mês bom de rendimento não pode parecer um mês bom de projeto.

Onde entra cada gasto: a categoria decide a linha
A DRE só é confiável se cada lançamento cair sempre na mesma linha. O jeito prático de garantir isso é amarrar a linha à categoria, e não decidir lançamento por lançamento: a categoria "Impostos" vai sempre para impostos sobre a receita, "Aluguel" vai sempre para despesas operacionais, "Plotagem" vai sempre para custos diretos.
O caso que gera dúvida é o gasto que às vezes é do projeto e às vezes é do escritório — um Uber, por exemplo. Aqui vale o desempate pelo projeto: se o lançamento está ligado a um projeto, é custo direto; se não está, é despesa operacional. É uma regra simples, que qualquer pessoa da equipe consegue seguir sem perguntar ao sócio.
Dois cuidados evitam as distorções mais comuns. Primeiro, o pró-labore dos sócios precisa estar nas despesas, mesmo que seja retirado de forma irregular: sem ele, a DRE mostra um resultado que na verdade é o salário de quem trabalha. Segundo, distribuição de lucro não é despesa — é o que se faz com o resultado depois que ele existe, e não entra na cascata.
Competência ou caixa: qual regime usar
O mesmo lançamento pode cair em meses diferentes dependendo do regime. Um projeto com honorário de R$ 30 mil, contratado em março e pago em seis parcelas até agosto, aparece inteiro em março no regime de competência e dividido de março a agosto no regime de caixa.
Competência mostra o resultado do trabalho que o escritório fez no período. É o regime para decidir preço, equipe e tipo de projeto, porque liga o custo ao mês em que ele foi gerado. Caixa mostra o dinheiro que efetivamente entrou e saiu. É o regime para conferir se o que foi vendido virou dinheiro.
Na prática, olhe a DRE nos dois regimes, lado a lado. Se a competência mostra um resultado bom e o caixa mostra um resultado ruim no mesmo período, o escritório está vendendo bem e recebendo mal — o problema é cobrança ou forma de pagamento, não preço. Se os dois estão ruins, o problema é preço ou estrutura.
Por que o custo das horas não é uma linha da DRE
Quem apura custo por projeto sabe que a hora da equipe é o maior custo de um projeto de arquitetura. Por isso surge a tentação de colocar "custo das horas" como uma linha da DRE. É um erro de contagem dupla.
O salário da equipe já está nas despesas operacionais, porque foi pago. O custo das horas é o mesmo dinheiro visto por outro ângulo: é o salário distribuído entre os projetos em que a pessoa trabalhou. Somar os dois faria a DRE mostrar o escritório gastando o salário duas vezes.
A distribuição das horas é valiosa, mas no lugar certo: no resultado de cada projeto. Ali, contratado menos custos diretos menos custo das horas mostra quais contratos sustentam o escritório. A DRE mostra se o conjunto deu resultado; o resultado por projeto mostra quais projetos puxaram para cima e quais puxaram para baixo.
Como ler a DRE sem se enganar
O número mais útil não é o resultado final, é a proporção de cada linha sobre a receita. Um escritório que gasta 70% da receita com despesas operacionais tem estrutura pesada para o que fatura, mesmo que o resultado seja positivo este mês. Acompanhar essas proporções mês a mês mostra a tendência antes que ela vire prejuízo.
Compare sempre com o mesmo período do ano anterior, e não só com o mês passado. Escritório de projeto tem sazonalidade: dezembro e janeiro costumam ser fracos em fechamento, e comparar janeiro com dezembro produz alarme falso.
Por fim, use a DRE para perguntar, não para concluir. Se os custos diretos subiram, abra os lançamentos daquela linha e veja quais projetos puxaram o número. A DRE aponta onde olhar; a resposta está nos lançamentos.
A rotina mínima para ter uma DRE confiável
DRE gerencial não exige contador nem sistema caro, exige disciplina em três pontos. Todo lançamento tem categoria, e a categoria tem linha definida. Todo gasto de projeto é lançado ligado ao projeto, na hora em que acontece. E o fechamento é mensal, na mesma data, com a DRE nos dois regimes.
A planilha funciona enquanto uma pessoa cuida dela. Quando mais gente lança, a categoria vira texto livre, o mesmo gasto aparece com três nomes e a DRE deixa de fechar. É nesse ponto que um sistema que já amarra a categoria à linha costuma se pagar.
Na prática, dentro do Projete.app
- No Projete.app, a DRE gerencial sai pronta das contas a pagar e a receber: cada categoria já tem a sua linha, o projeto desempata o que é custo direto e dá para ver em competência ou caixa, comparar com o ano anterior e clicar numa linha para abrir os lançamentos. Financeiro para escritório de arquitetura, ligado ao projeto.
- O custo das horas fica no resultado de cada projeto, calculado a partir do apontamento da equipe e do custo-hora de cada pessoa, sem virar lançamento e sem duplicar o salário na DRE. Controle de horas por projeto de arquitetura.
Perguntas frequentes
- Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?
- A DRE mostra se o escritório deu resultado no período e para onde foi o dinheiro faturado; o fluxo de caixa mostra se vai haver dinheiro em conta para pagar as contas nas próximas semanas. A DRE é sobre resultado, o fluxo é sobre saldo e datas. Um escritório pode ter DRE positiva e faltar caixa, porque o cliente paga em parcelas e as despesas vencem todo mês.
- Escritório pequeno precisa de DRE?
- Precisa de uma versão simples, sim. Mesmo um arquiteto autônomo com um estagiário se beneficia de saber quanto do faturamento vai para imposto, quanto para custos de projeto e quanto para estrutura. Cinco linhas e um fechamento mensal bastam; não é preciso reproduzir a DRE contábil.
- DRE gerencial substitui a DRE do contador?
- Não. A DRE contábil segue regras formais e é responsabilidade do contador. A gerencial usa as categorias do dia a dia do escritório para decidir preço, equipe e estrutura. As duas devem contar histórias parecidas; se divergirem muito, falta lançamento em algum lugar.
- Pró-labore entra na DRE?
- Entra, nas despesas operacionais. Sem o pró-labore, o resultado da DRE mistura o lucro do escritório com o salário de quem trabalha nele, e o escritório parece mais rentável do que é. Distribuição de lucro, por outro lado, não entra: ela é o destino do resultado, não um custo para chegar a ele.
- Devo usar regime de competência ou de caixa?
- Os dois, para perguntas diferentes. Competência mostra o resultado do trabalho feito no período e serve para decidir preço e estrutura. Caixa mostra o dinheiro que efetivamente entrou e saiu e serve para conferir se as vendas viraram dinheiro. Competência boa com caixa ruim indica problema de cobrança ou de forma de pagamento.
- Onde entra o custo das horas da equipe?
- No resultado de cada projeto, não na DRE. O salário já está nas despesas operacionais; o custo das horas é o mesmo dinheiro distribuído entre os projetos. Colocá-lo como linha da DRE contaria o salário duas vezes.
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